quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Educação e contradições na África do Sul



Prefeita sul-africana provoca polêmica e indignação com bolsas de estudo para meninas virgens
Nomsa Maseko Da BBC










 Thubelihle Dlodlo, de 18 anos, é uma das jovens que têm uma das bolsas de estudos para virgens


Thubelihle Dlodlo, de 18 anos, vive no vilarejo de Emcitsheni, na região rural de KwaZulu-Natal, na África do Sul. Ela ganhou uma bolsa de estudos condicionada a uma exigência nada comum: só poderá manter o benefício enquanto provar sua virgindade.

"Permanecer virgem é minha única chance de conseguir educação, pois meus pais não podem pagar minha escola", disse a jovem.

Dlodlo tem que se submeter a testes de virgindade, mas diz que não se importa com isso. "Testes de virgindade são parte de minha cultura, não é uma invasão de minha privacidade. E fico orgulhosa depois que confirmam minha pureza."
Grupos de defesa dos direitos humanos, porém, não pensam da mesma forma, e condenam de forma veemente iniciativas como essa.

Maioridade
Na África do Sul, a idade em jovens são considerados aptos para consentir com o sexo é de 16 anos. Há ainda uma regra que tornam ilegais as relações sexuais entre aqueles que têm entre 12 e 16 anos.

Mas Dlodlo, por exemplo, já passou dois anos da idade mínima para manter relações. E ela está apenas começando seus estudos universitários.

Ativistas afirmam que os testes de virgindade a que Dlodlo e outras estudantes têm de se submeter são uma invasão da privacidade das jovens, e que não é justo ligar chances de educação e sexo dessa forma.

 Prefeita afirma que iniciativa não condena meninas sexualmente ativas

"O que é realmente preocupante é que eles estão se concentrando apenas na menina, e isso é uma discriminação. E não tratam de problemas como a gravidez na adolescência e as taxas de infecção pelo HIV (vírus causador da Aids)", disse Palesa Mpapa, do grupo ativista People Oposing Women Abuse ("Pessoas no combate ao abuso de mulheres", em tradução livre).

A prefeita de uThukela, Dudu Mazibuko, que introduziu o programa de bolsa de estudos para meninas virgens, discorda dos ativistas.

"A bolsa de estudos não é uma recompensa, mas um investimento de uma vida inteira na vida de uma menina. Não estamos condenando aquelas que fizeram escolhas diferentes, pois as acomodamos em outras bolsas de estudo", afirmou.

O conselho do município oferece mais de cem bolsas – 16 delas foram concedidas a jovens virgens.

Tradição e cultura
 O teste de virgindade é comum nessa parte do país.

Na cultura zulu, é feito por mulheres idosas. Esses testes qualificam as jovens para a participação em uma cerimônia anual, em setembro, no palácio real do rei zulu Goodwill Zwelithini.

A prática não é ilegal no país, mas precisa ser feita com o consentimento da jovem.
 Dudu Zwane dá palestras em escolas e realiza testes de virgindade

A líder comunitária Dudu Zwane, de 58 anos, tem como missão estimular as garotas a não ter relações sexuais. Conhecida como Mãe Dudu, ela dá palestras em escolas.

"É muito importante para essas meninas se concentrar nos estudos e ficar longe dos meninos", disse.

Enfermeira aposentada, ela também faz testes de virgindade em jovens. Mãe Dudu admite que seus métodos não são científicos, mas diz que procura sinais específicos para provar que a menina nunca teve uma relação sexual.

"A condição social de mulheres jovens que continuam virgens aumenta. Muitas meninas se orgulham dos resultados depois dos testes", disse.

A ministra de Desenvolvimento Social sul-africana, Bathabile Dlamini, questionou recentemente os méritos dos testes.

Em uma declaração que chocou os mais tradicionalistas do país, ela afirmou que a prática funciona como um "elogio a outras práticas prejudiciais, como a mutilação genital feminina".





Testes de virgindade são comuns na cultura zulu

Orgulho
Nas regiões mais rurais de KwaZula-Natal a virgindade é celebrada, e permanecer "pura" é motivo de orgulho para as famílias.

Dlodlo diz que as amigas dela também são virgens e a invejam pelo fato de ela ter recebido uma bolsa de estudos.

Ela afirma não ter namorado porque não quer ser pressionada a manter relações sexuais. "Quero ser um modelo."

Alguns setores da sociedade veem os testes de virgindade como uma resposta para diminuir os números da gravidez na adolescência e de infecção pelo HIV.

O número de jovens gestantes tem disparado na África do Sul. Em 2013, eram 100 mil adolescentes grávidas, ante 81 mil em 2012 e 68 mil em 2011, segundo dados de um levantamento ligado ao Banco Mundial.

De cada mil estudantes, 180 ficam grávidas ou engravidaram jovens.


Número de adolescentes grávidas vem crescendo na África do Sul

O Conselho de Educadores da África do Sul e o departamento de educação consideram os dados como indicativos de uma crise sem precedentes. As escolas do país oferecem educação sexual, e a assistência maternal é grátis.

A África do Sul já tem o maior número de pessoas vivendo com o HIV no mundo todo. Mais alarmante ainda é que os números de infecção são maiores entre mulheres da faixa etária entre 15 e 24 anos.

Depois da polêmica, a Comissão de Direitos Humanos do país diz que investigará se o programa de bolsas de estudo para meninas virgens é contra a Constituição.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Resistencia

O jornal feito por crianças exploradas na Índia
P Sivaramakrishnan BBC Tamil



 copyright Mansi Thapliyal  Crianças que tiveram de viver nas ruas ou trabalhar tratam do tema em jornal na Índia


Em uma casa da capital indiana, Nova Déli, um grupo de crianças de rua está concentrado em uma incomum reunião editorial.

Elas estão ligadas pela paixão ao Balaknama (Voz das Crianças), um jornal de oito páginas dedicado às crianças que vivem e trabalham nas ruas.

A publicação orgulhosamente se autointitula "o único jornal do mundo para e feito por crianças de rua que trabalham".

Chandni, de 18 anos, a editora, se junta à animada discussão sobre o conteúdo da próxima edição do jornal, cuja circulação aumentou de 4 mil para 5,5 mil cópias desde que ela assumiu o comando, um ano atrás.

Os repórteres são crianças de rua ou que trabalhavam em Nova Déli ou localidades vizinhas. Elas foram resgatadas pela Chetna, uma ONG que atua na reabilitação de pessoas nessas condições.

Segundo estimativas, mais de 10 milhões de crianças vivem nas ruas e são forçadas a trabalhar na Índia.

'Catártico'
A vida de Chandni tem sido permeada pela extrema pobreza. Além de ter já ter trabalhado como artista de rua ao lado do pai, ela teve de atuar como catadora para sustentar a família.

Um programa de extensão da ONG a estimulou entrar para a escola e deu uma pequena remuneração para fazer com que ela não voltasse a catar lixo nas ruas. Além disso, a treinou para ser repórter.

"Eu estou muito orgulhosa de editar esse jornal porque ele é único na Índia. Crianças cuja infância foi roubada, que passaram fome, mendigaram, foram abusadas e forçadas a trabalhar escrevem sobre outras crianças que estão passando por situações semelhantes", conta Chandni.

"Não é só catártico, mas também dá a cada um de nós um propósito. Só podemos nos tornar melhores a partir disso."

Para ficar de olho no conteúdo que é produzido, Chandni conduz duas reuniões editoriais por mês.

O tabloide é vendido por 2 rúpias (R$ 0,12) e é financiado e publicado pela Chetna. Além de ter dificuldade em encontrar anunciantes, a publicação não recebe nenhuma ajuda do governo.

Recursos limitados
Hoje, ela estuda em busca de um diploma de Serviços Sociais e espera ter uma carreira como ativista. Ela também treina outros repórteres do jornal.

"Fizemos uma pesquisa por amostragem em Déli em novembro e rastreamos 1.320 crianças vivendo nas ruas e trabalhando", ela conta.

"Queríamos mostrar à polícia e ao governo que era possível fazer uma contagem correta do número de crianças de rua. Se nós conseguimos fazer isso com recursos limitados, então eles podem fazer o mesmo com todo o pessoal e recursos que têm."
"Tem-se falado de uma pesquisa sobre crianças de rua conduzida pelo governo de Déli e pela polícia, mas nada saiu até agora."

Shambhu, que também trabalha no jornal, afirma que enfrentou muita resistência e sofreu ameaças enquanto atuava na pesquisa.

"Tivemos que encarar muita oposição e até mesmo ameaças quando fomos conversar com crianças que trabalham em restaurantes e hotéis. Seus empregadores eram agressivos. Mas nós firmemente dissemos a eles que nós ligaríamos para o serviço de assistência a crianças se eles não nos deixassem conversar com elas", conta ele.

Chegar até crianças trabalhando em residências particulares, restaurantes e fábricas deu um propósito a outra Chandni, esta uma jovem de 16 anos.

Ela ecoa a dor e o horror de muitas crianças sem nome nas histórias que produz para o jornal – e, inclusive, se prepara para ser a próxima editora da publicação.

"Eu quero aumentar o alcance do jornal e fazê-lo dar lucro. Ele é a voz de todos nós que sobrevivemos às dificuldades nas ruas, nas casas de outras pessoas e em oficinas, e que agora podemos falar por vários outros que continuam a lutar. O silêncio deles deve ser ouvido", conclui ela.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A tragedia africana continua...

Terror do Boko Haram é descrito pelas crianças em desenhos

Publicado há 8 meses - em 18 de abril de 2015 » Atualizado às 11:38 
Categoria » Africanos




Refugiados nigerianos participam de programa da Unicef em campo. Elas desenham cenas de ataques, com sangue e fogo.
Do G1






Quando as crianças que sobreviveram ao Boko Haram desenham no campo de refugiados de Dar-es-Salam, na Tanzânia, as atrocidades que sofreram na Nigéria, o resultado é chocante: rostos ensanguentados, corpos sem cabeça, casas incendiadas.

Diante da grande tenda de campanha branca da Unicef, dezenas de crianças em trapos empoeirados se empurram, riem, antes de serem convocadas a manter a ordem.

Todas querem participar da oficina de desenho organizada no espaço “Amigos das crianças”, no Chade, onde este campo de refugiados se localiza.

O silêncio se instala rapidamente entre as crianças assim que elas recebem uma folha em branco e canetas. O tema do dia é doloroso e cada uma se concentra para reconstituir os acontecimentos dos quais foram testemunhas quando os islamitas atacaram seus povoados.

Sumaila Ahmid diz ter 15 anos, mas aparenta apenas 12.
“No dia do ataque estávamos diante de nossa porta quando vimos os Boko Haram. Foram na direção das pessoas que estavam na beira d’água e as fuzilaram, dispararam na cabeça”, conta o menino, de olhos amendoados.

Depois, desenha cadáveres flutuando em um rio. “Algumas conseguiram subir em canoas, estão fugindo. As outras estão mortas”, relata, sem pestanejar.

Outro desenho, outra cena chocante. “Este homem está em sua casa. Está consertando-a, mas ouviu o tiroteio do lado de fora. Quando sai para ver o que está acontecendo, um integrante do Boko Haram chega diante da casa, atira e a incendeia”, explica Nur Issiaka, também de 15 anos.

E, como se contasse uma história banal, conclui: “O homem tenta sair, mas não pode porque toda a casa está ardendo”. O homem morrerá, queimado vivo.

Crianças nigerianas participam de terapia da Unicef em campo de refugiados no dia 6 de abril (Foto: Philippe Desmazes/AFP)

Familiaridade com a tragédia
“Desde que começaram esta atividade (o desenho), as crianças se precipitam para se inscrever”, explica o responsável pela atividade, Ndorum Ndoki.

A equipe do campo de refugiados tenta identificar as que se isolam, ou as que parecem se familiarizar demais com a tragédia vivida, para impedir que fiquem traumatizadas, afirma Ndoki.

Todas as tardes, as oficinas de desenho também permitem que outros temas sejam tratados, como o amor ou a escola, entre duas partidas de futebol.

Cerca de 800 crianças estudam na “escola de urgência”, constituída por oito grandes tendas de campanha abertas em janeiro pela Unicef.

“Antes, não conheciam nada da escola, embora algumas seguissem um ensino corânico. Algumas jamais haviam tido uma caneta entre as mãos, mas aqui aprendem rápido”, afirma Umar Martin, um educador camaronês que vivia na Nigéria há anos, e que se somou aos 18.000 refugiados que precisaram fugir ao Chade.

Nos bancos da escola, também há jovens com mais de 20 anos querem aprender a ler e a escrever.

De canoa ou a pé, estas crianças e jovens precisaram fugir desesperadamente, perseguidos pelos insurgentes nigerianos até as águas do fronteiriço lago Chade. Entre elas, mais de 140 chegaram sem seus pais, que se perderam na confusão da fuga ou foram mortos pelo Boko Haram.

Mahamat Alhadji Mahamat, de 14 anos, levou uma semana para chegar ao campo de refugiados de Dar-es-Salam. Com seus tios, ia avançando durante as noites de ilha em ilha do grande lago, e se escondia durante o dia.

Em seu desenho, alguns pássaros voam junto a um caminhão repleto de fuzis de diversos tamanhos.

“Jamais poderei esquecer o que vi ali”, afirma, com um sorriso tímido. “Há crianças que nasceram durante a fuga. Quando me encontro com elas, no acampamento, não posso deixar de pensar em tudo isso…”.

“Mas quero aprender, e um dia voltarei para minha casa, para a Nigéria…”, afirma.
Tags: boko haram

sábado, 5 de dezembro de 2015

O apartheid e suas tragicas historias

Hamilton Naki: O jardineiro cirurgião


Categoria » Africanos










 Hamilton Naki nasceu em 26 de junho de 1926, de uma família negra e pobre em uma pequena aldeia do estado de Cabo do Leste, na África do Sul, de nome Ngcingane. Lá, ele completou seu curso primário. Com 14 anos, foi à procura de trabalho na Cidade do Cabo, arranjando emprego de jardineiro na Universidade da Cidade do Cabo.

Poucos anos depois, passou a trabalhar cuidando dos animais cobaias do laboratório.  Curioso e com vontade de aprender, transformou-se num faz tudo da clínica cirúrgica e foi se envolvendo nos procedimentos cirúrgicos em animais, incluindo suturas, anestesias e cuidados pós-operatórios. Apesar da sua carência de estudos formais, sua técnica e capacidade foram reconhecidas por Dr. Christiaan Barnard (primeiro médico a realizar um transplante de coração bem sucedido), que o requisitou para a sua equipe. Anos depois, Barnard teria dito: “se dada oportunidade, o Sr Hamilton Naki poderia ter sido melhor cirurgião que eu”. Durante o trabalho com Dr. Barnard, Naki se converteu em técnico de laboratório de pesquisa da Faculdade de Medicina, recebendo, assim, permissão especial para continuar suas pesquisas em cirurgia experimental, incluindo transplantes. Ele ensinava os estudantes de medicina e médicos recém-formados, técnicas cirúrgicas, embora nunca pudesse ter trabalhado como médico de humanos por causa das leis racistas do apartheid.

Há controvérsia sobre sua participação no primeiro transplante de coração bem sucedido entre seres humanos, feito em 3 de dezembro de 1967, quando foi retirado o coração de Denise Darvall, doadora do coração transplantado para Louis Washanky. O transplante foi realizado no Groote Schuur Hospital, na África do Sul. Por não ter diploma, ele não poderia ter participado da cirurgia, e, por ser negro, não poderia ter contato com pacientes brancos, a não ser como “médico clandestino”. Ele também não podia aparecer nas fotografias da equipe e, quando por acaso foi fotografado, foi identificado pela direção da faculdade como um simples faxineiro. Mas, mesmo registrado nos documentos do hospital como faxineiro e jardineiro, Naki recebia salário de técnico de laboratório, o mais alto do hospital para alguém sem diploma. Vivia em casebre de um quarto numa favela da periferia sem saneamento ou energia elétrica.

Naki se aposentou em 1991, e, após quatro décadas de trabalho na Faculdade de Medicina, passou a receber o salário de jardineiro, cerca de 280 dólares, muito inferior ao de técnico de laboratório. Ele conseguiu doações de seus ex-alunos e continuou trabalhando como cirurgião em um ônibus adaptado como clínica móvel. Na época, o Dr. Barnard disse sobre Naki: “Foi um dos maiores pesquisadores de todos os tempos no campo dos transplantes de coração”.

O fim do apartheid ocorreu em 1994, com a eleição de Nelson Mandela para a presidência da África do Sul.  Em 2002, como reconhecimento pelo seu trabalho, Naki foi condecorado com a Ordem Nacional de Mapungubwe, mais alta honraria por contribuição à ciência médica. Em 2003, recebeu um diploma honorário em medicina pela Universidade da Cidade do Cabo.

Com o reconhecimento adquirido após o término do apartheid, Naki se tornou famoso mundialmente, mas nunca se lastimou pelas injustiças sofridas. Em um determinado momento, em entrevista, confirmou sua participação no primeiro transplante de coração:  ele teria extraído o coração da doadora. No entanto, não há quaisquer referências e registros “oficiais” sobre o fato. A história  desse transplante pioneiro atribui a Marius Barnard (irmão de Christiaan) e Teray O’Donovan a captação do órgão da doadora.

Naki morreu em 29 de  maio de 2005, aos 78 anos, em sua casa na cidade de Langa, próximo à Cidade do Cabo.

Em 2008,  foi lançado o filme HIDDEN HEART:Hamilton Naki and Christiaan Barnard-  A verdadeira história do primeiro transplante de coração. Direção de Cristina Karrer e Werner Schweizer. (www.hidden-heart.com).