quinta-feira, 3 de março de 2016

Arte e ação



A melhor atriz coadjuvante do Spirit Awards 2016 é Mya Taylor, transgênera e tem um recado importante

Categoria » LGBTI

 
A atriz transgênera Mya Taylor, 24 anos, fez história ao vencer o Independent Spirit Awards na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, pelo filme Tangerine.

O Independent Spirit premia filmes independentes e de baixo orçamento, e aponta tendências para o Oscar. Nenhum outro ator ou atriz trans havia ganho um prestigiado prêmio de cinema antes.

Ela disputava o prêmio com Robin Bartlett (H), Marin Ireland (Glass Chin), Jennifer Jason Leigh (Anomalisa) e Cynthia Nixon (James White).

A cerimônia foi marcada pelo reconhecimento de minorias. Além de Taylor, uma transgênera, dois atores negros venceram nas categorias de atuação (melhor ator e coadjuvante). Spotlight, um filme que ataca a pedofilia na Igreja Católica, venceu em todas as categorias a que foi indicado.

De acordo com o site Deadline, o prêmio marca uma superação pessoal e profissional para Taylor, que concorreu a 186 vagas de trabalho e fez 26 entrevistas em dois anos, em Los Angeles. O nome e o gênero eram sempre um problema, já que ela não conseguia alterá-los na ficha cadastral.

“Quando apareceu a oportunidade de trabalhar em Tangerine, senti que foi um presente de Deus, fazendo valer a pena toda a luta de antes”, comentou Taylor durante uma coletiva nos bastidores.

Questionada sobre a maior abertura que a sociedade e a mídia têm dado aos transgêneros, ela respondeu que houve uma mudança. “Mais pessoas estão abrindo a cabeça quanto a diferentes gêneros e raças. Anos atrás, evitávamos falar disso… era uma época de sexismo.”

Ao receber o prêmio, ela destacou que “há talentos transgêneros”, e se dirigiu ao público, que incluía vários produtores: “É melhor você incluir um desses talentos no seu próximo filme”.

Tangerine foi totalmente gravado com iPhones e não há previsão de estreia no Brasil.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Sanidade



Lia para manter minha sanidade mental, diz ex-Pantera Negra preso 45 anos numa solitária


Categoria » Afro-americanos



 Ativista permaneceu detido por 45 anos na penitenciária de segurança máxima de Angola, na Louisiana


Em primeira entrevista após sair da prisão, Albert Woodfox disse que precisava ‘manter o foco na sociedade, permanecer conectado com o mundo exterior’


O ex-Pantera Negra Albert Woodfox afirmou nesta segunda-feira (22/02) que, durante o tempo em que permaneceu preso, no Estado da Louisiana, nos EUA, a leitura era um modo de “permanecer conectado com o mundo exterior” e essa conexão era única forma de não perder sanidade. Woodfox, que ficou preso por 45 anos em regime solitária, fez a declaração à emissora norte-americana Democracy Now!, na primeira entrevista que deu a um canal de televisão ou rádio após sair da prisão.
“[Ler] era uma das ferramentas que nós usávamos para permanecer focados e conectados com o mundo exterior”, disse Woodfox, ao ser perguntado se ler era permitido durante a detenção. Ele especificou que costumava ler “livros de história e sobre Malcolm X”, além de obras de Martin Luther King, Frantz Fanon e James Baldwin.

Woodfox foi libertado na última sexta-feira (19/02), dia em que completou 69 anos. Ele, a pessoa que passou mais tempo presa em uma solitária na história dos Estados Unidos, foi o último dos chamados “três de Angola” — em referência ao nome do estabelecimento prisional onde estava — a ser libertado. Woodfox integrava o grupo dos Panteras Negras, que militava por autodefesa dos negros contra o racismo e a violência policial.
Perguntado sobre o papel de Burl Cain, então diretor da penitenciária, e de Buddy Caldwell, então procurador-geral da Louisiana no caso, Woodfox afirmou que eles “desrespeitaram totalmente a Constituição, a lei, o processo legal e a falta de evidência”. “Eles apenas decidiram que éramos culpados e que fariam tudo que pudessem para nos deixar presos até morrermos”, afirmou.

O ativista destacou que foi visitar as lápides da mãe e da irmã, primeiro local aonde se dirigiu ao sair da prisão, por sentir um “vazio” ao não ter podido se despedir delas. Woodfox disse que na ocasião das duas mortes requereu uma ida ao funeral, mas em ambos os casos a Justiça negou.

A Democracy Now! entrevistou também Robert King, um dos “três de Angola”, que saiu da prisão em 2001 e passou a militar pela libertação dos companheiros. O terceiro ex-Pantera Negra, Herman Wallace, morreu de câncer em 2013, poucos dias após ter sido libertado.

 Albert Woodfox foi libertado no dia de seu aniversário de 69 anos, na última sexta-feira (19/02)

“Em 1972, eu, Herman Wallace e Robert King sabíamos que, para termos alguma chance de manter nossa sanidade e não permitir que a prisão nos destruísse, teríamos que manter nosso foco na sociedade”, disse Woodfox. O ex-Pantera Negra disse ainda que as visitas eram permitidas duas vezes por mês, mas “por conta da longa distância e da situação econômica”, os familiares não conseguiam vê-lo o quanto desejavam e geralmente o visitavam uma vez por mês.

Entenda o caso
Meses após terem sido detidos por assalto à mão armada em 1971, Woodfox e Wallace foram acusados, julgados e condenados pelo homicídio do guarda prisional Brent Miller e enviados para a solitária. King, por sua vez, foi acusado de estar envolvido na morte do guarda, mas não foi julgado; foi condenado pela morte de outro detento. Eles sempre negaram envolvimento nos crimes e afirmaram durante todo o tempo que foram colocados na solitária por lutarem por melhores condições de vida na prisão.

O programa na Democracy Now! mostrou o trecho de um documentário que mostra Teenie Verret, viúva do guarda Brent Miller, afirmando que acredita na inocência dos homens. “Se eles não fizeram isso, e acredito que não fizeram, eles estão vivendo em um pesadelo há 36 anos”, disse ela, em uma fala gravada em 2010.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Estilo e beleza!



Walé Oyéjidé estilista nigeriano fala sobre moda masculina e mais

Categoria » Variedades
 Walé Oyéjidé, estilista da Ikiré Jones


Diretamente dos EUA, onde mora atualmente, o estilista nigeriano Walé Oyéjidé da marca masculina Ikiré Jones passou pelo Brasil pra ministrar o workshop “Os Cortes da Estética Afro Futurista“, que fez parte da programação do Festival Afreaka em SP nesse último dia 18/06. A gente aproveitou pra conversar com ele sobre moda masculina e moda africana – confira!





Quem são as pessoas atraídas pelo mix de alfaiataria mais estamparia e cores africanas que você promove na Ikiré Jones?
Aprendi muito rapidamente que arte não tem dono. Nenhum artista pode controlar ou prever quem vai apreciar seu trabalho. É como lançar uma reivindicação pra alguém amar uma cor ou uma canção. Arte é pra todos, não importa quem a faz. Portanto, sim, é verdade que sou um estilista africano e que desenho baseado nessa minha herança. Mas as roupas que faço são pra todos apreciarem. O mundo está ficando menor a cada dia. Acredito que se todos abraçarmos culturas diferentes, isso vai nos fazer pessoas melhores, porque nos entenderemos melhor.

O que significa afro futurismo [tema do workshop]?
Imagino que signifique diferentes coisas pra diferentes pessoas. Pra mim, o conceito de afro futurismo é só um jeito de se distanciar dos velhos estereótipos do continente africano. Não necessariamente tem a ver com o reino da ficção científica. Qualquer um que apresente ideias corajosas e inovadoras sobre o potencial africano é um afro futurista.

Quando falamos sobre moda masculina, pessoas ainda acreditam que essa não é uma área de inovação porque homens tendem a ser mais práticos que fashionistas, homens não gostam de mudanças etc. Mas suas criações não vão por aí. Qual é a sua opinião sobre moda masculina, ela está mudando?
Acredito que estamos retornando a uma era em que homens entram na ideia de se vestir de maneira arrojada. Se você vê fotos da geração dos nossos pais, não era incomum homens usarem roupas arrojadas. Algo se perdeu, e homens nos anos 90 e 2000 ficaram preocupados, achando que roupas coloridas não eram masculinas. As coisas estão mudando devagar, e mais homens estão aprendendo a apreciar o espectro total – existe vida além do blazer azul ou cinza!

Em SP, com o festival Afreaka e outros eventos como a exposição “Africa Africans” no Museu Afro Brasil e até em marcas de moda que estudam a estética africana, parece que a África está “in”. Você tem alguma pista do por que isso está acontecendo, e por que só agora?
Bom, pra africanos a África sempre esteve “in”. Acho que estamos chegando em um lugar interessante onde as vozes que previamente eram silenciadas agora são ouvidas. Não é que eu ou outros estilistas antes de mim estamos fazendo algo novo, necessariamente, mas o mundo está começando a prestar atenção. Mas essa atenção pode fugir e pode declinar. Quando a coisa está envolvida com um estilo de vida, ela estará sempre presente. Pra muita gente, questões e estilos da África não são uma mania que será rapidamente esquecida – são a vida deles. Revistas podem parar de falar sobre moda africana ou assuntos africanos no mês que vem, mas sempre estaremos aqui fazendo o nosso.

Parece que nos países africanos as modas que surgem são muito mais ligadas, conectadas com suas origens e com o folclore do que no Brasil, onde as pessoas podem ter medo de parecer fora de moda ou cafonas se elas assumirem a felicidade e a explosão de cor das festividades tradicionais no seu dia-a-dia, por exemplo. Por outro lado, ao que tudo indica as marcas africanas acabam mais atraentes, especialmente entre estrangeiros, por causa dessa exaltação da própria cultura. Você concorda com isso? E qual seria o seu conselho pras marcas brasileiras?
Creio muito no “contar histórias autênticas”. Todos temos algo a aprender uns com os outros. Talvez algumas marcas africanas são respeitadas porque estão contando histórias que refletem sua própria história. Pessoalmente, acredito que todo mundo deveria fazer um esforço pra contar suas histórias pessoais em seus trabalhos. Se todos fizéssemos isso, saberíamos muito mais sobre o próximo. Mas na verdade, o que geralmente acontece é que pessoas tentam mimetizar o que já foi feito por outro. É difícil ser bem sucedido desse jeito. Mas se você conta sua própria verdade, ela sempre será nova e sempre será única. Existe só um Brasil. Nenhum outro país no mundo é como o Brasil. Se eu fosse sortudo o bastante em ser daqui, com uma história tão diferente, tentaria celebrar essa “identidade da diversidade”. Brasileiros tem muito pra se orgulhar, e muito pra ensinar ao mundo. Acredite ou não, isso pode ser feito pelas roupas e pela moda que se inspiram na cultura brasileira. E também acho que não podemos ter medo de confrontar as áreas mais escuras de nossa sociedade e história. Só chamando a atenção pra essas questões e discutindo-as respeitosamente que podemos crescer e nos curar.

Qual seria o seu conselho pra homens que não estão acostumados a usar cores fortes nos seus looks mas querem experimentar?
Experimenta! E aí pergunta a opinião de quem você ama. Prometo que ela ou ele vai gostar. Usar cores fortes não quer dizer que você precisa parecer um palhaço ou um desenho de criança. Existem jeitos deliciosos de vestir roupas “agressivas e gritantes”. Por exemplo: um jeans escuro com um paletó bem colorido e uma camisa branca lisa podem ficar muito elegantes. É como ser um pintor. Você precisa desenvolver um radar de quando está usando cor demais, e quando você ainda não está usando cor o bastante. Nós só aprendemos por experiência e cometendo erros. Você precisa ser corajoso o bastante pra tentar coisas novas. Algumas ideias não vão funcionar, outras vão. É assim que a gente cresce.

Você pode nos dar alguns nomes de homens que você considera estilosos hoje em dia?

Você também é um músico de afrobeat, então não conseguimos resistir: precisamos te perguntar alguns nomes novos da música africana!
Alguns músicos que eu gosto e que fazem música inspirada na África são Seun Kuti, Antibalas, Tony Allen e Ebo Taylor.