segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O rica cultura do Maranhão engrandece este Brasil.



Ubirajara e Alzira Fidalgo e a experiência política do Teatro Profissional do Negro

Publicado há 1 semana - em 3 de outubro de 2015 » Atualizado às 12:36
Categoria » Patrimônio Cultural - Portal Geledes











 
O Teatro Profissional do Negro (TEPRON) concebido por Ubirajara e Alzira Fidalgo no início da década de 1970 no Rio de Janeiro, capacitava, fazia política e crítica social dentro dos palcos em uma época em que a temática da negritude era constantemente abrandada e utilizada a serviço do ideal enganoso da miscigenação integradora, difundida pelo governo militar brasileiro. Enquanto a questão racial era abafada nas ruas e nas instituições pelos gritos de “democracia racial”, Ubirajara e Alzira fundavam um dos primeiros teatros que buscaram a inserção real do negro no campo das artes cênicas.


Natural de Caxias, Maranhão, Ubirajara Fidalgo nasceu em 1949 e iniciou sua trajetória teatral em 1968, ainda em São Luis, quando ingressa no curso de iniciação teatral de Jesus Chediak. Mais tarde participa do curso de Formação de Atores na Universidade do Maranhão partindo em 1970 para a Universidade do Rio de Janeiro. Na capital carioca inaugura os trabalhos do TEPRON participando enquanto diretor e ator principal da montagem de Otelo, de Shakespeare, encenado em 1970 no Teatro Tereza Rachel. A partir daí Ubirajara lança as bases para seu trabalho autoral no âmbito do teatro, debutando em 1973 com a peça “Os Gazeteiros” com elenco exclusivamente negro.

Sua participação fora dos palcos, no movimento negro, foi intensa até a sua morte em 1986. Ubirajara passa pelo Clube Renascença, importante centro de mobilização do negro carioca e participa de debates nos Centros Populares de Cultura da UNE (CPCs) e em redes de rádio e televisão. Além de seu trabalho enquanto dramaturgo, ator, produtor e diretor, nunca se afastou da militância tendo participação fundamental na fundação do Instituto de Pesquisa da Cultura Negra (IPCN) e da Associação Cultural de Apoio as Artes Negras (ACAAN) junto ao historiador e escritor negro Joel Rufino dos Santos. No entanto, seu projeto mais importante e original foi sem sombra de dúvidas o Teatro Profissional do Negro, construído ao lado da figurinista e cenógrafa Alzira Fidalgo ainda na primeira metade da década de 1970.

Dando continuidade ao projeto de Abdias do Nascimento no Teatro Experimental do Negro fundado em 1944, Ubirajara Fidalgo e Alzira Fidalgo se preocuparam não só com a capacitação teatral do negro pobre (foram pioneiros na aproximação entre o palco e os negros das periferias) ou com a composição étnica negra do teatro (“Queria ver negros interpretando papéis de cidadãos!”, disse Ubirajara certa vez). “A verdadeira base para o teatro negro é o texto”, dizia Ubirajara, e nesse sentido, o TEPRON se prestava a catalisar a produção de teatral não apenas encenada, mas escrita por negros.

Não se aplicava, no TEPRON, a resposta paternalista de “dar voz ao oprimido”. O oprimido tem voz e fala, ele só não é ouvido – ou tem o seu discurso reprimido e reconduzido por aqueles que muitas vezes procuram lhe dar voz. Ciente disso Ubirajara Fidalgo buscou unir a atuação a oficinas de teatro e construção de peças com a comunidade negra, buscando autonomizar a produção teatral abrindo caminho para o surgimento da figura, tornada tão rara, (ainda!) do “dramaturgo negro”. Posição esta revolucionária na medida em que já naquela época tocava num ponto tão caro aos movimentos contemporâneos de cultura negra: autonomia de produção.

Dentro de um mercado perverso de financiamento cultural e da quase ausência de políticas culturais voltadas para os negros, atualmente, o produtor cultural negro ou míngua face a impossibilidade de sustentar sua produção cultural por falta de recursos ou aceita as restrições e mudanças que folclorizam o seu conteúdo pasteurizando-o enquanto mercadoria passível de ser financiada. Atinente ao seu projeto de autonomização da produção cultural negra, o teatro para Ubirajara dependeria de bilheteria, e por isso a qualidade da produção era fundamental para a relação de engajamento do público com a obra. Essa relação vai além do simples consumo cultural e estabelece vínculos mais duradouros não só com a obra em si, mas com a temática racial que aborda e com o teatro negro enquanto realidade.


O teatro de Ubirajara se pretendia além de autônomo, real.  Essa realidade podia ser vista na recusa do descolamento de sua dramaturgia da situação objetiva do negro brasileiro. O paroxismo dessa junção texto/realidade era alcançado nos debates pós-espetáculo realizados no TEPRON que buscavam junto ao público presente e convidados, debater coletivamente a crítica social e a problemática negra a partir do discurso teatral.


Maranhense, Ativista do Movimento Negro em uma época tensa, Ubirajara Fidalgo foi incisivo nas críticas ao racismo, a discriminação no Brasil contemporâneo, o preconceito, a homofobia, a misoginia, desigualdade social e a ditadura militar. Como dramaturgo, foi autor do musical “Gazeta”, da comédia “A Boneca da Lapa”, do monólogo “Desfuga”, do drama “Fala pra eles Elisabete”, e da peça “Tuti”, uma tragicomédia sobre um triângulo amoroso entre uma prostituta, seu cliente e uma aristocrata gaúcha, que seria sua última obra em vida.

Nascido em 1949, morre precocemente por insuficiência renal em 1986, com 37 anos, alguns textos inéditos, trabalhos inconclusos e potencial não explorado pelo tempo que deixou vago. Ainda assim, o trabalho de Ubirajara e Alzira Fidalgo permanece ainda hoje, como exemplo de um projeto político amplo e coerente que através do teatro possibilitou a construção coletiva de espaços autônomos ocupados por negros, aliando sempre a capacitação profissional à formação política e social que consistia a base da crítica da realidade racial do nosso país. Coube à dramaturgia política praticada no TEPRON escancarar a opressão racial colocando o próprio negro pra falar sobre ela, e mostrando por fim, que a sorte é rala e a farinha é pouca para os pretos desse país.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Lamentavel perda de vidas



Tragédia na Arábia Saudita: o que se sabe até agora




 
Mais de 700 peregrinos morreram, a maioria pisoteados, e pelo menos 860 ficaram feridos após um tumulto ocorrido na última quinta-feira durante o Hajj, como é chamada a peregrinação anual à cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita.

Autoridades sauditas deram início a uma investigação sobre o que motivou a tragédia, mas ainda há muitas questões a serem respondidas.

Confira o que se sabe até agora.

Quando e onde a tragédia aconteceu?
As autoridades de defesa civil da Arábia Saudita dizem que o tumulto aconteceu por volta das 9h locais (3h de Brasília) na quinta-feira no cruzamento das ruas 204 e 233 da cidade de Mina, um grande vale localizado a cinco quilômetros ao leste de Meca.

Os peregrinos estavam caminhando de uma área coberta em direção a uma grande estrutura com vista para os pilares de Jamarat, onde o ritual de apedrejamento do diabo é conduzido.

O que causou a tragédia?
 
Segundo um porta-voz do Ministério do Interior saudita, o major-general Mansour al-Turki, investigações iniciais apontam que duas multidões vindas de direções contrárias se chocaram no cruzamento das ruas 204 e 223. Como resultado, houve empurra-empurra e pânico.

O que não está claro é como tudo aconteceu. Testemunhas afirmam que uma rua próxima havia sido fechada, forçando aqueles que se dirigiam ao local do ritual a usar a mesma rota que aqueles que deixavam o espaço.

Por sua vez, o ministro da Saúde saudita, Khaled al-Falih, optou por culpar os peregrinos, sugerindo que alguns deles teriam "caminhado sem seguir as instruções indicadas pelas autoridades competentes". O Irã, no entanto, instou o governo saudita a assumir a responsabilidade pelo incidente.

Testemunhas dizem que fazia muito calor no momento da tragédia, o que teria contribuído para disseminar o pânico.
A rua onde o tumulto aconteceu tem 12 metros de largura e é ladeada por grandes portões, por trás dos quais ficam as tendas montadas para acomodar os peregrinos.

De onde eram as vítimas?
As vítimas são de diferentes nacionalidades. Segundo autoridades sauditas, a maior parte dos mortos é de origem iraniana (131). Mas há também indianos (14), paquistaneses (6), turcos (4), indonésios (3), quenianos (3) e egípcios (8).
Entre os mortos, há também cidadãos do Níger, Chade, Argélia e Marrocos, mas os números ainda não foram confirmados. O governo do Afeganistão afirmou que pelo menos oito peregrinos do país estão desaparecidos.

Quais medidas de segurança foram tomadas?
 
Nos últimos anos, as autoridades sauditas alegam ter gastado bilhões de dólares para melhorar o transporte e outros tipos de infraestrutura, na intenção de evitar tragédias como a que ocorreu na última quinta-feira.

A tragédia poderia ter sido evitada?
O tumulto aconteceu do lado de fora do complexo de cinco andares Jamarat Bridge, concluído em 2007. A estrutura teve um custo exorbitante, para, segundo alega o governo saudita, aumentar a segurança dos peregrinos.

Cerca de 5 mil câmeras de segurança monitoram a área que engloba Meca e Medina. Além disso, 100 mil agentes de segurança foram deslocados para o evento deste ano.
Frente ao número crescente peregrinos que participam do Hajj, o governo também vem atuando, nos últimos quatro anos, na ampliação da Grande Mesquita.

No entanto, no início deste mês, um guindaste caiu sobre o local durante uma tempestade, deixando mais de 100 mortos.

domingo, 16 de agosto de 2015

Racismo e intolerância: quando poderemos, apesar da diáspora, sobreviver com nossos filhos?

É PURO PODER!
O movimento negro nos EUA tem um rosto e voz: Kendrick Lamar 

É julho. Um protesto contra a prisão de um menino de 14 anos movimenta Cleveland, Ohio. A policia chega com seu spray de pimenta e tenta dispersar a multidão. 

Não consegue. Todos se reúnem com seus traumas pelas mortes em confronto com a policia e intensificam a revolta:
“Nigga, we gon’be aldright/ Nigga, we gon’be alright/ We gon’be alright/ Do you  hear me, do you feel me? We gon’be alright”, entoam todos, o que pode ser mais ou menos assim:”Nego, vai fiar tudo bem. Você me ouve? Você me entende? Vai ficar tudo bem”.
Escutem:

É um visual de protesto e com poder sobre quem esta no conflito. É uma expressão de resistência e sobrevivência. Em entrevista o jovem Kendrick afirma que suas musicas refletem sim o momento de seu povo. “esta no sangue, entende. Porque sou Trayvon Martin. Eu sou todas estas crianças . Esta implantado no seu cérebro para que saia pela sua boca, assim que você vê pela TV. O incidente é só o estalo para mim”. 

E Trayron Martin tinha 17 anos e estudava em Stanford quando foi morto por um segurança que não foi preso, em 2012.

É consenso. Negros que vivem em certos bairros tem mais chance de ir para a prisão do que ir para a universidade. Negros representam, 50% da população carcerária e apenas  12% da população do pais.

A questão racial é o debate politico do momento nos Estados Unidos. É uma relação ruim, mas a relação de convivência, a experiência brasileira é muito pior.


Vivemos um momento de grandes questionamentos e como diz Harry Belafonte: lutamos por igualdade e esquecemos nosso filhos, hoje encarcerados ou mortos. Por um estado que ajudamos a reconstruir.

domingo, 19 de julho de 2015

A cultura nao tem cor.

Nordic Black Theatre: o teatro e o paradoxo da identidade negra na Noruega contemporânea

Nosso Brasil não aceita a diversidade. Nos tornamos um dos povos mais cruéis do mundo justamente por renegarmos o fim da escravidão e instituirmos o terrível apartheid ambiental. Há limites claros para o acesso de não brancos neste pais. A propaganda ganha prêmios em Cannes mas porque eles ainda não reconhecem o racismo expresso e limitado na insistência em não reconhecer consumidores negros. É um pais onde ser negro representa mais de  mil vezes o risco de ser assassinado apenas por ser negro. O exemplo da Noruega sempre calou fundo nos corações e mentes dos negros brasileiros que lutam contra a exclusão e o isolamento.

O Nordic Black Theatre (NBT) é um teatro negro em atividade há 23 anos no coração da Noruega. Oriundo do grupo de teatro político Artists for Liberation, o NBT foi criado pelo diretor teatral Cliff A. Moustache e pelo produtor Jarl Solberg e foi o primeiro teatro desta natureza fundado na Escandinávia.

por Deise Faria Nunes via Guest Post para o Portal Geledés
Em abril deste ano, o NBT estreou o espetáculo Great As I Am, uma narrativa cênica fragmentada que conta parte da história da lenda viva do boxe Muhammad Ali. O espetáculo foi apresentado em curta temporada, sempre com casa cheia, na sede do teatro, o Caféteatret, no centro de Oslo. Em fevereiro de 2016 a produção será retomada e encenada em um dos palcos mais importantes do país, a Ópera de Oslo.

O diretor Cliff Moustache é um agitador cultural profundamente interessado em questões como teatro político, identidade e diálogo intercultural. Para ele, mais que um heroi do esporte, Muhammad Ali tornou-se um ícone político e (contra)cultural ao converter-se ao Islã e ter sua licença de boxeador cassada no auge da carreira por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã. Em meio à polêmica, Ali enfrentou o patriotismo americano ao declarar: “Não tenho problemas com os vietcongs. Nenhum vietcong jamais me chamou de nigger.” Sua fala irônica, rápida e rimada é hoje comparada ao rap e à poesia slam, mas já era sucesso décadas antes de estas expressões serem integradas à cultura pop ocidental.

Ali é uma das muitas figuras afrodescendentes retratadas no estilo semi-documental de Moustache ao longo da história do NBT. Contudo, em 2014 o teatro foi ainda mais longe ao reafirmar sua identidade multicultural e encenar, na Ópera, a peça Tribute to the Heroes, que homenageou algumas das personalidades políticas mais importantes do nosso tempo, independente da sua origem étnica: Madiba Nelson Mandela, Rosa Parks, Mahatma Gandhi, Che Guevara, Dag Hammarskjøld og Aung San Suu Kyi.


O NBT é fruto de uma tradição de teatro político muito forte na Inglaterra e nos EUA. Nos dois países há também uma forte tradição acadêmica de pesquisa relacionada às práticas teatrais afro-descendentes. Na Inglaterra, o nascimento do teatro negro se deu através da massa de imigrantes provenientes das antigas colônias britânicas que chegaram ao país no pós-guerra. Já o teatro afro-americano é consequência da segregação institucionalizada que durante séculos obrigou a população negra a criar seus próprios espaços sociais e artísticos. Nessa tradição, reunir-se, organizar atividades, resistir a todo tipo de obstáculo e continuar existindo são ações políticas contundentes, vindas de setores da sociedade duramente oprimidos ao longo da história. Além disso, as escolhas estéticas e dramatúrgicas são fundamentais na construção da identidade política do teatro afro-descendente.        


No entanto, ao longo dos anos, o contexto sócio-cultural na diáspora africana presente na Europa e América do Norte tem sofrido mudanças contínuas. A globalização e a migração tem contribuído para a transformação da nossa identidade, fazendo necessária a criação de novos conceitos na tentativa de compreender melhor esses fenômenos. O livro emblemático de Paul Gilroy, O Atlântico Negro, lançado em 1993, é um marco desse processo.

A identidade de um negro que cresceu na Europa é algo impossível de se encaixar em valores pré-estabelecidos. Da mesma forma, para um teatro negro no século XXI, a questão da identidade vai além de um elenco exclusivamente negro ou da crítica unilateral à sociedade europeia.

Para o pesquisador e dramaturgo americano Paul Carter Harrison, o maior desafio do teatro negro contemporâneo está em desenvolver uma prática que contextualize os valores inspirados na África, para desta forma superarmos os traumas causados pela escravidão e o deslocamento forçado.[1]

E é exatamente na contextualização de que fala Carter Harrison que reside a complexidade da identidade negra na Escandinávia. Para o jovem norueguês negro é fundamental sentir-se parte da sociedade. Sentir-se norueguês, apesar do estranhamento. “De onde você vem?”, perguntam-lhe constantemente. “Sou daqui”, responde ele. Ao mesmo tempo, esse jovem traz consigo uma bagagem diferente, que não é daqui. Paradoxalmente, ele também tem de preservar uma outra história, uma outra cultura.



O Nordic Black Theatre opera exatamente dentro deste paradoxo, sem tentar solucioná-lo ou simplificá-lo. É no paradoxo que o diálogo acontece e é nele que somos levados a reconhecer que a sociedade escandinava contemporânea não é homogênea. É na aceitação do paradoxo que as diferenças se transformam em base de troca e compreensão mutua.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

o preconceito racial no Brasil



Campanha mobiliza a população contra o racismo no SUS

Da Reportagem do jornal DIÁRIO DE CUIABÁ,  onde retiramos este texto



O governo federal coloca no ar a primeira campanha publicitária que busca envolver usuários e profissionais da rede pública de saúde na luta contra o racismo. Lançada nesta terça-feira (25) pelo Ministério da Saúde e Secretaria de Direitos Humanos, a ação visa conscientizar a população de que a discriminação racial também se manifesta na saúde.

O ministro da Saúde, Arthur Chioro, afirmou que a campanha tem como objetivo o enfrentamento da discriminação institucional e o reforço à Política Integral de Saúde da População Negra. “Não podemos tolerar nenhuma forma de racismo. Essa campanha é um alerta para os profissionais de saúde e para toda a sociedade brasileira.

A desigualdade e preconceito produzem mais doença, mais morte e mais sofrimento. Nós queremos construir um país de todos e a maneira mais importante é falar sobre a desigualdade”, disse. O ministro ressaltou que o racismo se manifesta, muitas vezes, “em uma negativa do acesso, da informação adequada, e do cuidado”, disse.

Com o slogan Racismo faz mal à saúde. Denuncie!, as peças que serão veiculadas na TV, rádio, impresso e redes sociais incentivam as pessoas a não se calarem diante de atos de discriminação no Sistema Único de Saúde (SUS). Por meio do Disque Saúde 136 é possível denunciar qualquer situação de racismo ou obter informações sobre doenças mais comuns entre a população negra e que exigem um maior acompanhamento.

É o caso do diabetes mellitus (tipo II), cuja taxa de mortalidade, a cada 100 mil habitantes, afeta na população negra 34,1 habitantes, na população parda atinge 29,1 e, entre a branca, 22,7. A anemia falciforme, doença grave que deve ser diagnosticada precocemente por meio do teste do pezinho, é encontrada em maior escala entre a população negra, com incidência que varia de 6% a 10%, enquanto no conjunto da população oscila entre 2% e 6%.

Durante o lançamento da campanha, a ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, destacou os avanços da população negra. “Pela primeira vez a população negra e parda se autodeclara como sendo maioria no Brasil. Isso não é porque os negros e pardos se multiplicaram, é porque houve uma condição econômica, política e social de se reconhecerem assim”, afirmou a ministra.

Ela salientou que “a promoção da campanha no SUS, e cada vez mais ampliar as políticas públicas dando igualdade de oportunidades a todos os brasileiros, independente da sua raça ou condição econômica, é uma questão central da democracia brasileira”.

A criação da campanha foi motivada por relatos de discriminação e números que revelam a expressão do racismo no SUS, consequências do contexto social e histórico da população negra no Brasil. Dados do Ministério da Saúde demonstram que uma mulher negra recebe menos tempo de atendimento médico do que uma mulher branca. Enquanto 46,2% das mulheres brancas tiveram acompanhantes no parto, apenas 27% das negras utilizaram esse direito. Também 77,7% das mulheres brancas foram orientadas para a importância do aleitamento materno e apenas 62,5% das mulheres negras receberam essa informação.

As taxas de mortalidade materna e infantil na população negra são muito acima das registradas entre mulheres e crianças brancas. Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde revelam que 60% das mortes maternas ocorrem entre mulheres negras e 34% entre as brancas. E, na primeira semana de vida, acontecem, em maioria, entre crianças negras (47% dos casos). Entre as brancas, representam 36%.

A secretária de Políticas para Ações Afirmativas da Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), Angela Nascimento, reconhece os avanços que têm permitido a inclusão da população negra, mas destacou que ainda há desafios a serem superados. “O tema racismo ainda encontra resistência nas nossas formações. Por isso, a campanha lançada hoje representa um passo importante enquanto compromisso institucional e o nosso desejo de construirmos juntos novas práticas”, complementou.

Além de divulgação da campanha publicitária em todas as mídias, será distribuído ainda folders para a população, que trazem números relacionados às mulheres e às crianças negras, além de informar sobre as doenças mais comuns na população negra.

Novas Ações - Profissionais do Disque Saúde já passaram por treinamento para identificar as denúncias caracterizadas como racismo, que serão direcionadas aos órgãos competentes. O racismo não se apresenta necessariamente na forma de atitudes discriminatórias explícitas. Nas instituições pode ocorrer na forma de linguagem codificada (violência simbólica) e negligência (indiferença diante da necessidade). As dúvidas e denúncias registradas no Disque 136 também serão consolidadas e servirão para direcionar novas ações do Ministério da Saúde e da Secretaria de Direitos Humanos.

O Ministério da Saúde iniciou ainda duas novas ações para reforçar o combate ao racismo no SUS. Mais de 2,4 mil profissionais de saúde estão inscritos em módulo virtual de educação à distância sobre a 'Saúde Integral da População Negra', lançado em 22 de outubro. E em iniciativa conjunta com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), após a publicação de edital, recebeu cerca de 100 projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação voltados para Saúde da População Negra no Brasil.

Política Nacional - O Ministério da Saúde firmou compromisso para a construção da equidade racial em saúde para a população negra ao instituir, pela Portaria 992/2009, a Política Nacional de Saúde Integral para a População Negra, cuja marca é: “reconhecimento do racismo, das desigualdades étnico-raciais e do racismo institucional como determinantes sociais e condições de saúde, com vistas à promoção da equidade em saúde”. O principal objetivo da Política, que é transversal às outras políticas, como Saúde da Mulher, Saúde da Criança, Saúde do Homem, é promover a saúde integral da população negra.

O tratamento pelo SUS de doenças que mais afetam a população negra, como é o caso da anemia falciforme, alcança cerca de 40 mil pessoas. O atendimento inclui exames de rotina, entre os quais, a eletroforese de hemoglobina, o dopller transcraniano para prevenção do derrame cerebral e de sangue para controle da doença.

Os medicamentos disponíveis são hidroxiuréia, ácido fólico, quelantes de ferro, analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos e vacinas de rotina e especiais. A cada ano, aproximadamente 2,4 milhões de recém-nascidos fazem o exame de Doença Falciforme pelo SUS, ou seja, uma cobertura de 83,2% das crianças que nascem no país.

No caso do diabetes, a população tem acesso a ações de prevenção e tratamento, desde a atenção básica até procedimentos de média de alta complexidade. São asseguradas gratuitamente as insulinas humana NPH – suspensão injetável 1 e humana regular, além de três medicamentos que ajudam a controlar o índice de glicose no sangue (libenclamida, cloridrato de metformina e glicazida).

As comunidades quilombolas são priorizadas no Mais Médicos do Ministério da Saúde, recebendo investimentos em infraestrutura e profissionais para atuarem nessas localidades. São 249 municípios com comunidades quilombolas atendidos pelo programa, que possuem um ou mais médicos, somando 1.630 ao todo. (Regina Pires e Amanda Costa/Agência Saúde)