sexta-feira, 7 de abril de 2017

Educação é libertação



Estudo analisa mulheres e negras na educação brasileira






Date: 03/01/2017
Um projeto desenvolvido entre 2014 e 2016 trouxe para o debate as políticas educacionais no Brasil para a questão do gênero, com apoio do Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM), da Comunicação em Sexualidade ECOS e do Geledés, Instituto da Mulher Negra.
Fonte: GGN



Uma compilação de artigos aprofunda o desafio da educação e gênero no Brasil, a agenda para as políticas educacionais, o contexto histórico das propostas políticas já ou não implementadas, as mulheres negras na sociedade civil e no campo acadêmico, e como a ONU analisa a educação brasileira.

A seguir, a descrição dos artigos, reprodução de trecho da apresentação do documento:
Com o objetivo de tornar conhecidos os propósitos e as ações do Projeto Gênero e Educação, a Introdução deste livro apresenta as principais contribuições e o potencial articulador da iniciativa em um contexto político bastante desafiante do país. Contexto no qual a questão de gênero vem sendo objeto de disputas acirradas com grupos religiosos fundamentalistas e com outros grupos contrários às agendas de direitos humanos – como o movimento Escola Sem Partido – no processo de tramitação e implementação dos planos de educação nacional, estaduais e municipais e no cotidiano de muitas escolas públicas do país.

Em seguida, Denise Carreira aborda no artigo Informe Brasil – Gê- nero e Educação: da Conae às Diretrizes Nacionais, as principais recomendações e desdobramentos deste que foi o documento base do Projeto. Elaborado em 2011 e atualizado em 2013, sob responsabilidade da Ação Educativa, o Informe foi desenvolvido no marco da Campanha por uma Educação Não Sexista e Antidiscriminatória, coordenada pelo CLADEM.

Apresentado em 2011 ao Congresso Nacional e no mesmo ano em audiência pública à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), o Informe foi atualizado em 2013 e constituiu uma das principais referências para os debates ocorridos no processo que culminou na segunda Conferência Nacional de Educação (CONAE), realizada em novembro de 2014, em Brasília/ DF. Com base na incidência política articulada de vários movimentos sociais, a CONAE 2014 deliberou a favor da construção de Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação, Gênero e Diversidade Sexual, uma das principais recomendações do Informe.

No artigo Contribuições da produção acadêmica sobre gênero nas políticas educacionais: elementos para repensar a agenda, Sandra Unbehaum e Cláudia Vianna apresentam um balanço crítico sobre a agenda de gênero nas políticas educacionais brasileiras, tendo por base a produção acadêmica desenvolvida sobre esse tema entre 2000 e 2015.

O material examinado contempla 102 produções acadêmicas dedicadas (artigos, dissertações de mestrado ou teses de doutorado), das quais 95 foram divulgadas a partir de 2001 (Vianna, 2011). Dessas, 34 foram elaboradas entre 2007 e 2009 e 31 entre 2010 e 2015. No texto, é identificado o crescimento da pesquisa acadêmica sobre a temática de gênero e da diversidade sexual nas políticas públicas de educação, sobretudo a partir de 2008. As autoras retomam as recomendações do Informe Gênero e Educação (2011, 2013), para discuti-las com base nos achados do balanço crítico sobre a produção acadêmica.

No artigo Mulheres negras na educação: desafios para a sociedade brasileira, Suelaine Carneiro aborda a participação das mulheres negras no sistema de ensino. A autora trata das desigualdades educacionais entre as mulheres brasileiras, identificadas como um dos desafios da agenda de gênero no Informe Brasil – Gênero e Educação, em especial as desigualdades que impactam a trajetória educacional das mulheres negras, decorrentes do racismo.

É apresentado um levantamento da produção de informações e de conhecimentos sobre mulheres negras na educação desenvolvida nas últimas décadas por universidades e organizações da sociedade civil. Partindo do reconhecimento da atuação do movimento de mulheres e homens negros ao longo da história brasileira – no qual a educação sempre ocupou um lugar de destaque –, identifica-se que a produção sobre mulheres negras e educação avançou timidamente nos anos de 1990 e ganhou fôlego a partir de 2003. De forma crítica, a autora observa que tal produção, comprometida com uma abordagem interseccional entre gênero e raça, ainda está pouco refletida nos periódicos de educação e, inclusive, nos periódicos acadêmicos com foco em estudos de gênero e feminismo.

No artigo A educação brasileira na ONU: temas e debates nos relató- rios do Brasil ao Comitê CEDAW, Ingrid Leão trata das ações a favor do direito à educação indicadas à ONU pelo Brasil, com atenção a educa- ção de meninas e mulheres. O Comitê CEDAW é instância da ONU responsável por acompanhar a implementação dos direitos humanos das mulheres à luz da Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher – CEDAW (sigla em inglês), aprovada em 1979.

O levantamento teve como referência as informações prestadas pelo Estado brasileiro nos relatórios oficiais ao Comitê CEDAW no período de 2003 a 2012. Em consonância com o Informe Brasil – Gênero e Educação (2011, 2013) e com base na análise desses relatórios, a autora apresenta as mudanças ocorridas nas políticas educacionais nas últimas décadas e chama a atenção para a necessidade que a agenda da igualdade de gênero na educação seja abordada pelo governo brasileiro em sua complexidade, como políticas de gênero, indo além de políticas limitadas às mulheres e referenciadas no maior acesso e no melhor desempenho delas na escolarização.

No último artigo desta publicação, Sylvia Cavasin retoma a experiência da Rede de Gênero e Educação em Sexualidade (REGES), rede de advocacy impulsionada com o objetivo de sensibilizar universidades, organizações da sociedade civil e órgãos governamentais sobre a importância da inclusão da educação em sexualidade na perspectiva das relações de gênero nos currículos de formação inicial de professoras e professores.

Como esforço de uma organização de sociedade civil, a REGES foi criada em 2009 pela ECOS – Comunicação em Sexualidade, com o apoio da Fundação Ford, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Teve como base a pesquisa As Políticas de Educação em Sexualidade no Brasil 2003 a 2008, desenvolvida pela ECOS. No artigo, a autora destaca a importância do fortalecimento da REGES visando a manutenção das conquistas das últimas décadas em educação em sexualidade.

Considerando todos os desafios colocados neste momento político, mais do que nunca, as organizações coeditoras desta publicação ressaltam a necessidade estratégica de aproveitar o momento conflitivo e polêmico de disputa de projeto de sociedade que o país atravessa para ampliar e pluralizar a roda de debates e fortalecer as alianças políticas em prol da igualdade de gênero nas políticas educacionais, traduzindo seus impactos no cotidiano das escolas e da vida em sociedade. É fundamental construir e atravessar “pontes”, além de somar forças com todas e todos aqueles comprometidos com democracia, justiça social e direitos humanos no país.

domingo, 19 de março de 2017

Cinema africano, ops, nigeriano



Nollywood: o cinema da Nigéria que criou a sua própria identidade

Conheça a indústria cinematográfica nigeriana que vem influenciando outros países no continente

Natalia da Luz, Por dentro da África

 

 

 

 

Rio - Quando uma crise econômica atingiu o país na década de 80 prejudicando a indústria audiovisual, os nigerianos não se abateram. Eles foram em busca de um novo formato de produção e, em 20 anos, se transformaram na segunda maior indústria cinematográfica em produção do mundo, levando ao mercado interno e externo cerca de 200 filmes por mês. De todas as particularidades de Nollywood, que é hoje um exemplo para todo o continente africano e para o mundo, a democracia ao acesso é o seu pilar central.

-  É um modelo democrático onde é possível produzir. É barato de operar, aproveita as condições econômicas da Nigéria e usa como matéria-prima uma população enorme, cheia de ótimas histórias para contar – diz, em entrevista ao Por dentro da África, Jonathan Haynes, professor da Universidade de Long Island (Nova Iorque), que há décadas se debruça sobre os estudos do cinema nigeriano.

A proposta de Nolywood, nome que nasceu em 2002, não se encaixa no perfil comercial de Hollywood( indústria dos Estados Unidos). Ela é autêntica e olha única e exclusivamente para a África e para a Nigéria, uma fonte vasta de energia e de curiosidade com mais de 250 línguas e dialetos. Por conta disso, Nollywood não produz apenas em inglês, mas em línguas locais como yoruba, igbo e hausa.

Em um país onde a maioria das famílias tem mais aparelhos de DVDs do que refrigeradores, e onde ficar em casa é uma opção mais segura e barata do que sair às ruas para ir ao cinema (cerca de 70% da população vivem com menos de US$2 dólares por dia e não podem pagar um ingresso de cerca de US$10 dólares), Nollywood cresceu, criou raízes e uma regra: levar os filmes para os mais de 170 milhões de habitantes!

Nolywood surgiu contrapondo a necessidade de treinamento técnico e domínio de equipamentos caros, usados na indústria cinematográfica mundial. O objetivo que regia os cineastas era contar histórias. E foi esse desprendimento técnico que transformou esse modelo em um sucesso, usado como exemplo em todo o continente e em regiões do Caribe.

-                Nolywood tem um longo caminho. O país precisa criar laboratórios de processamento, e a técnica precisa melhorar, mas já há muitos trabalhadores aprimorando luz, áudio, edição. Conforme o retorno financeiro aumenta, maiores são as possibilidades de evoluir tecnicamente – conta Haynes sobre o mercado que emprega, pelo menos, 200 mil habitantes e movimenta US$250 milhões de dólares por ano ( o terceiro maior do mundo atrás de Hollywood e Bollywood - cinema indiano ).



Mahmood Ali-Balogun, um dos diretores mais renomados do cinema nigeriano, fala com orgulho da atuação de seus conterrâneos que não segmentam o processo de produção dos filmes. Segundo ele, desta forma, eles não precisam destinar recursos a tantos terceiros.

-                As pessoas que compõem a equipe trabalham em várias áreas. Todos precisam ter uma noção do todo porque essa é a nossa fórmula de sucesso. Nós filmamos em 10 dias, em um mês. Quanto mais rápido você fizer, mais retorno terá – disse o diretor de "Tango with me" – o longa-metragem mais lucrativo do mercado nigeriano em 2011 que foi exibido em Londres e que, nas salas de cinema nigerianas, superou os 100  mil espectadores.

A revolução na distribuição
O start para Nollywood foi seguinte à crise econômica que atingiu em cheio os cinemas nigerianos. Mahmood lembra que as salas começaram a fechar, e muitas se tornaram igrejas e outros estabelecimentos. Brevemente, os nigerianos encontraram uma saída que abrangia a produção para a TV e para o vídeo. A demanda para os cinemas estava abalada, mas não a demanda para a TV e para o vídeocassete, na época. Living in Bondage (lançado em 1992) é considerado o primeiro blockbuster de Nolywood exibido em vídeo e estrela do Prêmio da Academia Africana de Cinema. A obra dirigida por Chris Obi Rapu é um misto de religiosidade e crenças que ajudou  a construir a estética de Nollywood.




Desde então, milhares de filmes foram lançados. Em 2009 , a Unesco descreveu Nollywood como a segunda maior indústria (de produção) do mundo e a segunda atividade que mais emprega nigerianos.

No país onde o ingresso do cinema é caro demais para a população, o mercado de sucesso é o DVD. Em todo o território, há apenas 12 cinemas multiplex com quatro salas de exibição. De forma independente, os próprios produtores faziam seus filmes chegarem ao público da forma mais simples possível: pelas ruas.

Ainda hoje, a preços acessíveis (cerca de US$2 dólares), os filmes são vendidos nas ruas e em locadoras.

Mesmo com o custo baixo, havia uma estratégia para combater a pirataria. Zeb Ejiro, diretor de Domitilla ( filme lançado em 1996, grande sucesso de Nolywood), conta que, no início, as cópias eram assinadas manualmente e depois embaladas. O trabalho árduo que parecia interminável (dependendo do número de cópias) não era ineficaz como parece para um ouvinte.

-  Havia algumas pessoas para avaliar isso. O próprio diretor ou produtor poderiam fazer: entrando nas locadoras e pegando uma cópia. Ao abrir a embalagem, a assinatura era conferida; se fosse falsa, a polícia era chamada – conta ao Por dentro da África Zeg, também no comando da Film and Broadcast Academy, instituição que ajuda a formar mão-de-obra especializada.

Para Jonathan, o estudioso que passa dias esmiuçando a indústria dos nigerianos, há muito o que aprender sobre Nollywood, onde filmes que custam aproximadamente US$15 mil dólares são produzidos em 10 dias e viram grandes hits.

-  É muito difícil fazer filme sem eletricidade... Em alguns lugares, onde há ausência ou quedas de luz, o processo é prejudicado. Mesmo com tantos desafios, eles estão expondo a imagem da África que é moderna e tradicional. Certamente, é um exemplo de autenticidade.