domingo, 19 de março de 2017

Cinema africano, ops, nigeriano



Nollywood: o cinema da Nigéria que criou a sua própria identidade

Conheça a indústria cinematográfica nigeriana que vem influenciando outros países no continente

Natalia da Luz, Por dentro da África

 

 

 

 

Rio - Quando uma crise econômica atingiu o país na década de 80 prejudicando a indústria audiovisual, os nigerianos não se abateram. Eles foram em busca de um novo formato de produção e, em 20 anos, se transformaram na segunda maior indústria cinematográfica em produção do mundo, levando ao mercado interno e externo cerca de 200 filmes por mês. De todas as particularidades de Nollywood, que é hoje um exemplo para todo o continente africano e para o mundo, a democracia ao acesso é o seu pilar central.

-  É um modelo democrático onde é possível produzir. É barato de operar, aproveita as condições econômicas da Nigéria e usa como matéria-prima uma população enorme, cheia de ótimas histórias para contar – diz, em entrevista ao Por dentro da África, Jonathan Haynes, professor da Universidade de Long Island (Nova Iorque), que há décadas se debruça sobre os estudos do cinema nigeriano.

A proposta de Nolywood, nome que nasceu em 2002, não se encaixa no perfil comercial de Hollywood( indústria dos Estados Unidos). Ela é autêntica e olha única e exclusivamente para a África e para a Nigéria, uma fonte vasta de energia e de curiosidade com mais de 250 línguas e dialetos. Por conta disso, Nollywood não produz apenas em inglês, mas em línguas locais como yoruba, igbo e hausa.

Em um país onde a maioria das famílias tem mais aparelhos de DVDs do que refrigeradores, e onde ficar em casa é uma opção mais segura e barata do que sair às ruas para ir ao cinema (cerca de 70% da população vivem com menos de US$2 dólares por dia e não podem pagar um ingresso de cerca de US$10 dólares), Nollywood cresceu, criou raízes e uma regra: levar os filmes para os mais de 170 milhões de habitantes!

Nolywood surgiu contrapondo a necessidade de treinamento técnico e domínio de equipamentos caros, usados na indústria cinematográfica mundial. O objetivo que regia os cineastas era contar histórias. E foi esse desprendimento técnico que transformou esse modelo em um sucesso, usado como exemplo em todo o continente e em regiões do Caribe.

-                Nolywood tem um longo caminho. O país precisa criar laboratórios de processamento, e a técnica precisa melhorar, mas já há muitos trabalhadores aprimorando luz, áudio, edição. Conforme o retorno financeiro aumenta, maiores são as possibilidades de evoluir tecnicamente – conta Haynes sobre o mercado que emprega, pelo menos, 200 mil habitantes e movimenta US$250 milhões de dólares por ano ( o terceiro maior do mundo atrás de Hollywood e Bollywood - cinema indiano ).



Mahmood Ali-Balogun, um dos diretores mais renomados do cinema nigeriano, fala com orgulho da atuação de seus conterrâneos que não segmentam o processo de produção dos filmes. Segundo ele, desta forma, eles não precisam destinar recursos a tantos terceiros.

-                As pessoas que compõem a equipe trabalham em várias áreas. Todos precisam ter uma noção do todo porque essa é a nossa fórmula de sucesso. Nós filmamos em 10 dias, em um mês. Quanto mais rápido você fizer, mais retorno terá – disse o diretor de "Tango with me" – o longa-metragem mais lucrativo do mercado nigeriano em 2011 que foi exibido em Londres e que, nas salas de cinema nigerianas, superou os 100  mil espectadores.

A revolução na distribuição
O start para Nollywood foi seguinte à crise econômica que atingiu em cheio os cinemas nigerianos. Mahmood lembra que as salas começaram a fechar, e muitas se tornaram igrejas e outros estabelecimentos. Brevemente, os nigerianos encontraram uma saída que abrangia a produção para a TV e para o vídeo. A demanda para os cinemas estava abalada, mas não a demanda para a TV e para o vídeocassete, na época. Living in Bondage (lançado em 1992) é considerado o primeiro blockbuster de Nolywood exibido em vídeo e estrela do Prêmio da Academia Africana de Cinema. A obra dirigida por Chris Obi Rapu é um misto de religiosidade e crenças que ajudou  a construir a estética de Nollywood.




Desde então, milhares de filmes foram lançados. Em 2009 , a Unesco descreveu Nollywood como a segunda maior indústria (de produção) do mundo e a segunda atividade que mais emprega nigerianos.

No país onde o ingresso do cinema é caro demais para a população, o mercado de sucesso é o DVD. Em todo o território, há apenas 12 cinemas multiplex com quatro salas de exibição. De forma independente, os próprios produtores faziam seus filmes chegarem ao público da forma mais simples possível: pelas ruas.

Ainda hoje, a preços acessíveis (cerca de US$2 dólares), os filmes são vendidos nas ruas e em locadoras.

Mesmo com o custo baixo, havia uma estratégia para combater a pirataria. Zeb Ejiro, diretor de Domitilla ( filme lançado em 1996, grande sucesso de Nolywood), conta que, no início, as cópias eram assinadas manualmente e depois embaladas. O trabalho árduo que parecia interminável (dependendo do número de cópias) não era ineficaz como parece para um ouvinte.

-  Havia algumas pessoas para avaliar isso. O próprio diretor ou produtor poderiam fazer: entrando nas locadoras e pegando uma cópia. Ao abrir a embalagem, a assinatura era conferida; se fosse falsa, a polícia era chamada – conta ao Por dentro da África Zeg, também no comando da Film and Broadcast Academy, instituição que ajuda a formar mão-de-obra especializada.

Para Jonathan, o estudioso que passa dias esmiuçando a indústria dos nigerianos, há muito o que aprender sobre Nollywood, onde filmes que custam aproximadamente US$15 mil dólares são produzidos em 10 dias e viram grandes hits.

-  É muito difícil fazer filme sem eletricidade... Em alguns lugares, onde há ausência ou quedas de luz, o processo é prejudicado. Mesmo com tantos desafios, eles estão expondo a imagem da África que é moderna e tradicional. Certamente, é um exemplo de autenticidade.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Relações áfrica - China



Festival de cinema africano terá prêmio especial para curta-metragem




2017-02-27 16:57:53portuguese.xinhuanet.com
Ouagadougou, 26 fev (Xinhua) -- A corporação de cineastas e produtores de filmes africanos, uma ONG com sede em Paris, premiará um curta-metragem com o prêmio especial Thomas Sankara durante o festival pan-africano mais conhecido como FESPACO no Burkina Faso.

O prêmio de 3 milhões de francos CFA (cerca de 4.830 dólares) é uma homenagem ao falecido Thomas Sankara, o revolucionário que governou o Burkina Faso nos anos 80, disseram os promotores da ONG no domingo em Ouagadougou.

"Não estamos à procura de um filme revolucionário, o cinema já é um feito revolucionário," disse Balufu Bakupa-Kanyinda, presidente da ONG.

"Fazer um filme na África já é um ato de compromisso e resistência," acrescentou.
Thomas Sankara é o pai da revolução do Burkina Faso e foi assassinado em outubro de 1987 durante um golpe que trouxe ao poder o presidente Blaise Compaore, que foi afastado do poder por uma revolta popular em outubro de 2014.

O FESPACO, o festival pan-africano de cinema e televisão, realiza a sua 25ª edição, que teve início no sábado em Ouagadougou.

Um total de 150 filmes estão competindo e 20 estão disputando o glorioso "Garanhão de Yennega," o grande prêmio.

Realizado sob o tema "formação e profissões audiovisuais e cinema," o festival se encerrará em 4 de março.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A China e o mundo



 Invasão chinesa





getty images

A China está em Portugal como em nenhum país do Ocidente. E controla sectores estratégicos como a energia, e tão diversos como a saúde ou os transportes aéreos. Foram a grande novidade da onda de vendas pós-troika e já ultrapassaram Angola como grande investidor. Querem ter um pé na base das Lajes



A 26 de setembro, às 20h15, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, aterrou na base das Lajes, em Angra do Heroísmo, juntamente com a mulher e oito membros do seu Governo. O objetivo era preparar a visita de Estado de António Costa à China, durante a qual o primeiro-ministro português seria recebido ao mais alto nível, com direito a uma reunião com o Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, no Palácio do Povo, em Pequim. Portugal está definitivamente na rota de investimento da China, a segunda maior economia do mundo, liderada por um Presidente empenhado em reconstruir o Império do Meio e em expandir o mercado para as suas empresas.

Era a terceira vez em quatro anos que o primeiro-ministro ou o Presidente da China pisavam a base das Lajes, concessionada aos Estados Unidos da América. Não se trata de uma mera coincidência a passagem dos líderes chineses nas Lajes nos últimos anos, é também um sinal de afirmação da influência chinesa no Atlântico, defende Miguel Monjardino, académico e especialista em geopolítica e geoestratégia. 

Li Keqiang iria pernoitar na Terceira, isso já se sabia, o que criou espanto foi ter passeado com a mulher no centro de Angra e assistido a um concerto na Praça Velha. Tocava a Orquestra de Sopros da Ilha Terceira e os Myrica Faya. Porque o fez? Miguel Monjardino responde: “É muito interessante. Sente-se seguro para o fazer. E, de certa maneira, terá querido perceber como é que os açorianos reagiam à sua presença.” Monjardino acredita que Pequim vai solicitar a passagem regular pela base das Lajes, como tem feito quando viaja para o continente americano, mas está fora de questão um uso militar. Quando muito, admite, Portugal e China poderão estabelecer acordos que envolvam os Açores para as áreas de investigação marítima e logística, um cenário que o Governo está a equacionar.

A China é o novo grande investidor em Portugal e foi a novidade da onda de vendas que varreu o país após a entrada da troika. Está, em termos de perceção, a assumir papel que antes era atribuído a Angola. E a estender-se a domínios inesperados, como, por exemplo, os media. Tem comprado das melhores e mais lucrativas empresas portuguesas. 

Troika abre a porta
A grande investida chinesa iniciou-se em 2011, com o país sob intervenção da troika. A China está a internacionalizar as suas empresas e Portugal estava endividado e ávido de dinheiro. Desde então os investidores chineses já aplicaram em Portugal €12,5 mil milhões, mais do que o montante arrecadado com as privatizações naquele período (€9,5 mil milhões). Até aí o investimento direto era irrisório: um ano antes de rebentar a crise financeira mundial, em 2007, situava-se nos €2,2 milhões e veio sempre a cair até ao investimento na EDP. 

A elétrica presidida por António Mexia foi a porta de entrada: saiu o Estado português entrou o chinês. Pouco tempo depois aconteceu o mesmo com a REN. E hoje a China está em Portugal como em nenhum outro país do Ocidente, com uma presença forte em áreas estratégicas, como a energia, e uma dispersão significativa em vários domínios da economia, que vão desde a saúde, os seguros, o imobiliário, o turismo e, entre outros, a aviação e os media. Quase nada lhes escapa. 




Em alta. António Costa, aqui com o primeiro-ministro Li Keqiang, foi recebido ao mais alto nível na sua recente viagem oficial à China. Portugal tem sido um dos grandes destinos do investimento chinês na Europa
FOTO Naohiko Hatta/Poo /REUTERS

Há capital chinês na TAP (HNA), na Fidelidade (Fosun), na Luz Saúde (Fosun), na comunicação social (entraram na Global Notícias através da KNJ Investment Limited), no turismo e no imobiliário. Mas não só. A China poderá estar à beira de se tornar o grande acionista da banca privada portuguesa. Será uma cartada de mestre, a preços convidativos, e a colocação de mais um pé na banca europeia. O grupo privado chinês Fosun está desde o verão em negociações para entrar no BCP, onde pretende ficar com até 30% do capital. E o Minsheng Financial Group é um dos cinco candidatos à compra do Novo Banco. Já é chinês o antigo BES Investimento, foi comprado pela Haitong no final de 2014. Se as operações em curso tiverem sucesso, os investidores ficarão a controlar cerca de 30% do mercado financeiro português.

Estado chinês substitui o português
Portugal foi eleito há dez anos pelos chineses como um dos quatro parceiros estratégicos da China no mundo. Uma aposta que já começou a dar frutos. Há relações históricas que se retomaram. A China sente-se bem acolhida, e essa é também uma das razões porque têm investido em força. O Governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas estendeu-lhe a passadeira, quando deixou empresas estatais chinesas tomar o controlo do sector energético. A EDP e a rede de transporte de energia portuguesa, a REN, são hoje detidas maioritariamente por duas elétricas chinesas, a China Three Gorges e a State Grid. O Estado português encaixou com estas vendas mais de três mil milhões de euros — €2,7 mil milhões por 21,35% da EDP e €387,15 milhões por 29,9% da REN. Mas entregou ao Estado chinês um monopólio natural (REN) e uma empresa que tem tido nos últimos anos praticamente mil milhões de euros de lucro (EDP).

O controlo do sector energético por uma empresa estatal estrangeira, especialmente a infraestrutura de transporte, causa arrepios, atingindo, aliás, todo o espectro político português da esquerda à direita. Mais nenhum país na Europa abriu mão do controlo da distribuição e transporte de energia. Portugal fê-lo, e o Governo chinês sente-se agradecido. E pode ir mais além. Na investigação para o livro “Negócios da China” percebemos que a presença de capital chinês no sector energético poderá não ficar por aqui e alargar-se à Galp.

Um antigo gestor da petrolífera admite que a estatal chinesa Sinopec, já parceira da Galp no Brasil, terá nos seus planos estender a sua participação a Portugal. O facto de a Sonangol, acionista da Galp juntamente com Américo Amorim, estar fragilizada pode abrir caminho para isso. Uma hipótese que não é de excluir tendo em conta que uma das razões que levou a China a comprar empresas portuguesas foi precisamente o reforço da presença nos países da lusofonia, onde Pequim tem uma importante palavra a dizer. A Galp está presente em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé. Fonte governamental adianta mesmo que os chineses, há anos a despejar milhões de euros em negócios em África, muitas vezes sem o esperado retorno, já reconheceram que poderão ter vantagem em estar naqueles mercados com empresas e gestores que os conhecem há décadas.

A lusofonia, embora não seja o único, é de facto um dos factores que tem atraído os investidores chineses, como reconhece Raquel Vaz Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade de Lisboa. “Portugal tem uma grande vantagem na perspetiva da China, as possíveis parcerias com o mercado lusófono, sobretudo Angola e Moçambique, e também o Brasil, embora este caso seja mais complexo. Há também Macau, que passou a ser uma espécie de placa giratória e uma porta de entrada, favorecendo Portugal nesta circunstância de país europeu e lusófono”. Mas não passa apenas por aí. “Portugal tem também empresas com um valor tecnológico apetecível, como é o caso da EDP Renováveis. E hoje a China dá uma importância muito grande ao crescimento sustentável. Uma das maiores fontes de protesto está relacionada com as terras de cultivo e os problemas ambientais”, avança a investigadora. Raquel Vaz Pinto dá argumentos para a entrada, por exemplo, na Luz Saúde. “A China, por causa da antiga política de um filho único, tem hoje uma população envelhecida, e isso também ajuda a perceber o seu interesse pelo sector da saúde. Esta é claramente uma área em que a China está à procura das melhores práticas.”

Concorrem para ganhar
Quando sinalizam o interesse por um ativo, os investidores chineses raramente perdem. Saem quase sempre vencedores. Isso aconteceu na privatização da Fidelidade, na venda do Hospital da Luz, na EDP e na REN. Na verdade, ofereceram sempre o preço mais alto, e isso, foi determinante. Para os menos críticos à chamada invasão de capital chinês em empresas portuguesas, há reconhecimento, uma vez que consideram que a China deu a mão a Portugal quando o país mais precisava. Na realidade, os milhões injetados pelas compras dos chineses foram uma importante almofada numa altura em que o país tinha o acesso aos mercados limitado e não havia fortes candidatos às privatizações. Já os mais críticos dizem que o investimento chinês não traz valor acrescentado, como foi o caso de Fernando Ulrich, presidente do BPI, que considera Portugal como “o porta-aviões da China para entrar na Europa”. “Ninguém fica escandalizado com o facto de o presidente da Fosun ser membro do comité central do Partido Comunista Chinês e as empresas sejam comandadas pelo Estado e depois é aqui d’el rei quando os angolanos compram qualquer coisa em Portugal, argumentando-se que não são transparentes”, comentou Ulrich, em abril em 2015.

Pouco muda, para já...
Uma coisa é certa, a entrada dos chineses nas empresas portuguesas tem sido feita de forma discreta. Mantêm os gestores ao comando das empresas que controlam. António Mexia, continua como presidente da EDP e Jorge Magalhães Correia da Fidelidade. Isabel Vaz lidera o destino da Luz Saúde. Até agora as empresas que compraram não fizeram cortes, mantêm o número de trabalhadores e estão a expandir os negócios. Há pequenas mudanças, claro. Os chineses apreciam a discrição. António Mexia, por exemplo, passou a ter uma agenda mediática mais contida. E ultimamente a EDP tem usado contadores de energia fabricados na China. É, contudo, ainda cedo para perceber o verdadeiro impacto da entrada de capital chinês nas grandes empresas, nomeadamente ao nível do investimento e da criação de emprego qualificado. E é preciso não esquecer que a paciência é um dos trunfos dos chineses.

Se Passos Coelho abriu a porta, António Costa manteve-a aberta. Portugal é o quinto maior destino do investimento chinês na Europa, e há uma nova onda de compras a caminho, onde se destacam, como já referido, o BCP e, provavelmente, o Novo Banco. Na mira estão agora também turismo e agricultura e a criação de uma plataforma logística no Porto de Sines, que tem suscitado interesse da China. O convite ao investimento chinês faz-se sentir também nos corredores da diplomacia. O embaixador da China em Portugal, Cau Run, esteve há pouco mais de um ano no Porto de Sines numa visita guiada. Os objetivos foram claros: mostrar a competitividade do porto e a sua localização geoestratégica, um excelente ponto de entrada na Europa. A capacidade de expansão do Porto de Sines, sobretudo na área afeta aos contentores, também foi abordada, já que poderá ser aqui instalada uma plataforma logística.

As relações diplomáticas com a China atravessam um momento de ouro. E não deixa de merecer destaque o anúncio de três voos diretos semanais de Lisboa para Pequim a partir de 2017. Um estimulo a um maior fluxo comercial e turístico entre os dois países. 2016 deverá fechar com a visita de 180 mil turistas chineses, um recorde absoluto.

A fase de investimento em grandes empresas, algumas monopolistas acabou, já não há praticamente mais nada para privatizar, e agora a palavra de ordem é diversificar. E foi esse o recado que António Costa deixou na visita à China.

China à disputa com Angola?
Coincidência ou não, a verdade é que a onda de investimento chinês segue um roteiro com semelhanças ao executado no passado pelos angolanos, que entraram primeiro no sector da energia e depois foram alastrando os seus domínios para a banca, os media, o imobiliário e também para as pequenas e médias empresas do sector produtivo. Aproveitando a debilidade dos investidores angolanos, já sem o poder que os estratosféricos preços do petróleo lhe garantiam, os investidores chineses estão a substituir os investidores angolanos como grandes compradores. E com vantagem sobre estes, tem entrado a preços mais atraentes.

 

Não é só como o novo grande investidor que a China está a dar nas vistas. É curioso como os empresários chineses estão a entrar em empresas onde os angolanos já se encontram. A Fosun pode vir a tornar-se o maior acionista do BCP, destronando a Sonangol. Há capital chinês na Global Notícias, até agora controlada por angolanos, e é grande a especulação sobre o interesse dos chineses na Galp. “A China é um importante parceiro comercial de Angola. Com a descida dos preços do petróleo, os angolanos perderam o fulgor, passaram a ter de partilhar participações em determinados negócios, e a China está a assumir posições que antes eram dos angolanos”, sublinha Raquel Vaz Pinto. Contudo, a investigadora afirma que é prematuro tirar conclusões sobre o investimento angolano em Portugal ou dizer que esta entrada dos chineses é coordenada como o Governo de Angola.

Reciprocidade e o debate europeu
Há um grande debate na Europa face ao investimento direto chinês, a que Portugal tem passado ao lado. O Reino Unido e a Alemanha, os novos grandes destinos dos investimentos chineses, estão a torcer o nariz à entrada de Pequim nos sectores estratégicos. Rebentou há poucas semanas em Berlim a polémica por causa da intenção de compra da grande tecnológica alemã Kuka pela chinesa Midea Group. O Governo alemão opôs-se. Começam a criar-se anticorpos na maior economia da Europa. É que nos primeiros seis meses do ano, os chineses investiram 10,8 mil milhões de dólares na Alemanha na compra de 37 empresas, e uma grande parte deste investimento destinou-se a adquirir tecnológicas, a grande coqueluche dos investidores do Império do Meio.

A chanceler alemã, Angela Merkel, quer reciprocidade. A Alemanha é a grande exportadora da Europa, e a China é muito protecionista, predomina ainda o capitalismo de Estado. “A reciprocidade é o nó górdio. Há um conjunto de sectores na economia chinesa ainda controlados pelo Estado. Há uma série de questões a analisar sobre o futuro, nomeadamente, o que irá ser a evolução da elite chinesa. Tem havido uma centralização do poder no presidente. Ji Xinping é cada vez mais olhado como um imperador, há já quem lhe chame o presidente imperial”, alerta Raquel Vaz Pinto. A China ainda não é uma pura economia de mercado e isso levanta muitas questões. Portugal encontra-se na fase de namoro, mas, não tardará, terá também de entrar neste debate.
As autoras acabam de publicar 
na Oficina do Livro “Negócios da China”
Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 19 de novembro de 2016